Neste mês, as cigarras cantam e os trovões caminham por cima da terra,agarrados ao sol.
Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,e depois a noite é mais clara,e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.
Mas tudo é inútil,porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,e a tua narina imóvel não recebe mais notíciado mundo que circula no vento.
Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero das vespas...- e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,com água que borbulha.
Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro a areia queima branca e seca,junto ao mar lampejante:de cada fronte desce uma lágrima de calor.
Mas tudo é inútil,porque estás encostada à terra fresca,e os teus olhos não buscam mais lugares nesta paisagem luminosa,e as tuas mãos não se arredondam já para a colheita nem para a carícia. Neste mês, começa o ano, de novo,e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil: eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece.
(Cecília Meireles)


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